Movimento de Schoenstatt

Texto de Isabel Tavares no jornal I de hoje, 17 de fevereiro...

...Da  teoria à prática, com Jesus na ordem do dia...


Marcos e Raquel, casados, Rita, a aguardar a decisão final sobre a anulação de um casamento, e João Pedro, a terminar a faculdade. Mingas, a representante da juventude feminina, não pôde, à última hora, estar presente. Só leigos e nenhum sacerdote, por incompatibilidade de horários. Mas, por telefone, o padre José Melo, coordenador das actividades do Movimento de Schoenstatt, viria a explicar que estava muito bem assim, porque "estrutura não é piramidal, é federativa".
E depressa se percebe que, sem uma hierarquia vincada, este tipo de estrutura é uma das marcas-d'água da instituição, um dos movimentos católicos mais elitistas e por muitos considerado ultra-conservador. Riem-se os quatro quando pergunto se estão de acordo e, à laia de brincadeira, lhes peço os apelidos: Frescata, Fontoura e Duarte. A intermediária do encontro é Rocha e Melo. Coincidência. Acontece que o santuário de Lisboa, à volta do qual se realizam todas as actividades, foi construído no Restelo, uma zona nobre.
Muito mais a sério, explicam que para se construir um santuário não basta ter dinheiro, é preciso haver vida. E, quando uma comunidade sente que está preparada, então sim, ergue um altar. A ideia é que é Nossa Senhora quem escolhe onde e quando. O Santuário do Restelo foi erigido em 1974 e os pais de Marcos foram membros fundadores. Mas há mais três: em Braga, Aveiro e no Porto, por acaso no Canidelo, na margem mais pobre do rio Douro.
"Há uma ideia errada sobre o movimento", dizem. E João Pedro, que está na juventude masculina, é o primeiro a concordar e a desmistificar. Já conhecia Schoenstatt, pelos amigos e pela irmã. "Via-os num grupo de vida, muito felizes, e não percebia bem. Aos 18 anos decidi dar uma hipótese e experimentar." Até hoje. Mas não o fez antes porque "tinha um preconceito, que muita gente tem. Achava que era um movimento muito fechado, pouco acolhedor. E é tudo ao contrário", conta. "Nem é preciso pertencer a um dos ramos [ver caixa], basta vir a uma missa para perceber isso."
E foi este acolhimento que atraiu Rita, a representante do grupo das mães. Ao contrário de João Pedro, que está "tão bem aqui" que não quer "experimentar outros movimentos", Rita já passou por diversas experiências, dos Jesuítas ao Comunhão e Libertação. Não só por ser mais velha, mas porque tem quatro filhos, entre os 16 e os 24 anos, e cada um escolheu o seu caminho, todos católicos.
"Tinha influências mas nunca me vinculei a nenhum movimento. Casei, tive filhos e sempre gostei de conhecer as várias possibilidades, mas nunca os empurrei para lado nenhum." Um dia uma amiga desafiou-a para a peregrinação a Fátima, que Schoenstatt realiza todos os anos, e foi. "Inscrevi-me sem dizer se tinha preferência por algum grupo e fiquei num em que não conhecia quase ninguém", lembra. "Mas as pessoas interessam-se genuinamente pelo outro, sobretudo se estiver sozinho." Pouco depois formava-se o grupo de mães. "Schoenstatt é um movimento de liberdade, interior e exterior."
Marcos, baptizado no santuário aos 15 dias, explica: "A ideia é cada um encontrar o seu espaço de crescimento mais profundo. Há lugar para todos." E esta dimensão é importante, ter espaço para acolher. "Os grupos nascem espontaneamente pela necessidade de receber uma pessoa concreta que encontra em Schoenstatt o seu caminho", diz. Depois cada grupo cria vínculos e uma unidade que o ajuda a crescer.
Marcos é convicto nas suas crenças, tanto que pouco dias depois de ter pedido Raquel em namoro já lá vão perto de dez anos, ela estava no movimento, a ajudá-lo a organizar a peregrinação a Fátima. Hoje já fazem os dois parte do grupo das famílias.
"Em Fátima, por exemplo, não há um santuário, o que pode parecer estranho, porque o nosso carisma é mariano", afirma Raquel. Para logo concluir que é assim "porque não há um grupo de pessoas que gere vida. E é na medida em que há vida que as coisas acontecem".
E é também Raquel quem responde, enquanto embala o carrinho da pequena Madalena, à acusação de que movimentos como Schoenstatt estão a roubar fiéis e vocação à igreja diocesana. "Queremos ser vistos como fonte de integração. Não podemos ver estes movimentos como algo que tira, mas como algo que acrescenta."
Rita acrescenta que é bom olhar para a Igreja e ver uma quantidade de leigos com um papel tão activo. É verdade que há padres que se queixam que lhes estão a roubar fiéis, mas se calhar "nas paróquias não são acolhidos assim". E logo acrescenta que o movimento é um extra no crescimento espiritual de cada um. Ela própria está a formar na paróquia de Santa Maria de Belém um grupo de visitas a reclusos, "porque o chamamento foi lá".
João Pedro sabe que esta crítica é real. Na comunidade dos Olivais, um padre chegou a perguntar-lhe o que é que a diocese poderia fazer para imitar os movimentos e cativar mais jovens. Mas não está de acordo com a condenação. "Penso que se não fossem os movimentos, muitas das vocações que existem não seriam descobertas. Por exemplo, os padres de Schoenstatt poderiam nunca ser padres por não sentirem o chamamento ou os fiéis poderiam nem sequer frequentar missa nenhuma".
De facto, a Igreja diocesana diz que está a envelhecer e o Movimento de Schoenstatt está cheio de gente nova. "Talvez não tenham gerado vida necessária para cativar as pessoas. É a Igreja, no seu seio, que tem de perceber o que perdeu em dado momento que deixou de atrair as pessoas", remata Raquel.

P&R

"São os diversos caminhos que agregam a Igreja"

Como aplica o carisma do movimento à Igreja de hoje?
Todos são chamados a participar. A vida da Igreja tem de ser cada vez mais assumida pelos leigos. Antes os leigos eram mais passivos e os padres é que eram activos. O que é necessário é que cada um tenha o desejo íntimo de construir na sua vida um caminho de santidade, que aqui é apoiado em Nossa Senhora. Cada um deve encontrar o seu carisma, são maneiras diferentes de estar, mas o mesmo objectivo. Mas temos muitas pontes com o patriarcado, o trabalho que fazemos não é um substituto, é complementar.
O proselitismo de Schoenstatt disputa território com a Igreja?
A riqueza da Igreja é a diversidade. Muitos vêm à missa aqui, mas a maioria vai à sua paróquia. Mas muitos encontram aqui o seu carisma. A missão é contribuir para a diocese, para a Igreja como um todo. São diversos os caminhos que agregam a Igreja. Faz parte da nossa missão, como membros do movimento, estar dentro da Igreja, na sua estrutura, e não ser um grupinho à parte.
Como vivem os escândalos da Igreja? É importante perceber que também dentro da Igreja há um caminho a fazer e que existem coisas que não são coerentes, que têm de ser trabalhadas e purificadas, porque somos humanos. Dentro da instituição que formamos também há pecadores. A noção da Igreja terrena, muito humana, é importantíssima.
O que pensa do projecto de reforma do Papa Francisco?
A reforma era tão necessária que é um desejo profundo e quase transversal à Igreja. E depois esta porta de renovação transformadora que o Papa veio trazer e todas as linhas que estão a ser traçadas vêm muito ter com aquilo que é a nossa forma de estar. É uma fonte de esperança.

MANUAL DE INSTRUÇÕES

HISTORIA

No dia 18 de Outubro de 1914, o padre José Kentenich propôs a um grupo de jovens consagrarem-se a Maria. Estabeleceram-se numa pequena capela abandonada, transformando-a num lugar de graças e de peregrinações, e comprometeram-se a oferecer a Maria uma intensa vida de oração e o esforço por viver a santidade na vida diária. Schoenstatt [lugar bonito] é um lugar em Vallendar, na Alemanha, e é lá que está o santuário original.

OS LEIGOS

Existem diversos ramos ou ligas para desenvolver vocações específicas no compromisso apostólico:
Famílias;
Juventude, dividida em juventude masculina (Cruzados, Pioneiros e Universitários) e juventude feminina (Apóstolas de Maria, Aliadas e Universitárias);
Mulheres, onde estão, por exemplo, as mães
Homens

VIDA CONSAGRADA

Os Institutos são parte motriz e asseguram a vitalidade interior e a projecção apostólica. Alguns membros destas comunidades têm como tarefa central o serviço directo a Schoenstatt. Denominam-se Institutos Seculares e têm uma característica própria: vivem segundo os conselhos evangélicos, mas sem votos (por esse motivo, canonicamente, não são integradas na comunidades religiosas). O vínculo jurídico estabelece-se através de uma "consagração - contrato". Comunidades de vida Consagrada:
Instituto das Irmãs de Maria de Schoenstatt (1926)
Instituto dos Irmãos de Maria (1942)
Instituto Nossa Senhora de Schoenstatt (1946)
O Instituto de Famílias de Schoenstatt espera reconhecimento pelo direito canónico. O Instituto dos Irmãos de Maria é de direito diocesano, os outros de direito pontifício

SACERDOTES

O Instituto Secular dos padres de Schoenstatt foi fundado para ser parte central e motriz da obra de Schoenstatt. Nesse sentido, o serviço permanente ao movimento é uma referência para a sua missão. É uma comunidade de direito pontifício, tem também direito próprio de incardinação. Os sacerdotes diocesanos também fazem parte da família de Schoenstatt, unidos pela sua espiritualidade e por uma vivência comunitária. Estão plenamente inseridos nas suas dioceses e encontram no carisma de Schoenstatt uma ajuda para a sua santidade. Os diversos grupos e comunidades de padres diocesanos em Schoenstatt, ou mesmo individualmente, constituem-se segundo o grau de envolvimento e compromisso comunitário, ascético e apostólico (no sentido de Schoenstatt). Comunidades de sacerdotes:

Instituto Secular dos Sacerdotes Diocesanos de Schoenstatt (1945)
Instituto Secular dos Padres de Schoenstatt (1965)
União Apostólica dos Sacerdotes Diocesanos de Schoenstatt
Liga dos Sacerdotes Diocesanos de Schoenstatt (1966)

OS HERÓIS

Max Brunner, que teve um papel de liderança, especialmente na secção de missões. Hans Warmer, membro fundador da Congregação Mariana. José Engling, membro fundador: o seu processo de beatificação decorre na diocese de Treves, na Alemanha. Gertraud von Bullion, a primeira mulher a ingressar no movimento, co- -fundadora da coluna feminina. Fritz Kúhr, formado em Direito e Economia, estudou, simultaneamente, Teologia, tornou-se o primeiro noviço do Instituto de Famílias de Schoenstatt. Franz Reinisch, austríaco, foi o único presbítero católico executado no Terceiro Reich por se ter recusado a jurar bandeira a Hitler. Carlos Leisnerner, o primeiro membro do movimento a ser beatificado, em 1993. Pe. Albert Eise, a quinta cruz negra no santuário original, pertenceu aos congregados e à geração fundadora da obra. Irmã M. Emilie Engel, participou na fundação do Instituto das Irmãs de Maria de Schoenstatt e foi mestra de noviças. Mário Hiriart, nasceu em Santiago, no Chile, e ingressou no movimento como membro da Juventude Masculina de Schoenstatt. Bárbara Kast, membro. João Luiz Pozzobon, ordenado diácono permanente

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