Modelismo Náutico no Centro Cultural

João Loureiro e Paulo Agra

"Se nos abrissem o peito, 
encontrariam lá dentro 
um barquinho à vela"

D. João Evangelista

Diz D. João Evangelista de Lima Vidal, primeiro bispo da restaurada Diocese de Aveiro, de forma poética mas cheia de verdade, que «somos feitos, dos pés à cabeça, de Ria, de barcos, de remos, de redes, de velas, de montinhos de sal e areia, até de naufrágios. Se nos abrissem o peito, encontrariam lá dentro um barquinho à vela, ou então uma boia ou uma fateixa, ou então a Senhora dos Navegantes». É por isso que nós, os da beira ria, gostamos tanto de barcos e barquinhos, da ria serena e das ondas do nosso mar, que nos embalam desde que nascemos. Também por isso, não perdemos exposições relacionadas com temas lagunares e marítimos. 
No Centro Cultural da Gafanha da Nazaré está patente, até 31 de dezembro, uma exposição com modelos de navios e outras embarcações, organizada pela associação TEAM (Truques & Engenhocas Associação de Modelismo), com sede na nossa cidade.
Logo à entrada, o visitante depara-se com o primeiro Prémio de Modelismo, atribuído por um júri, cujo vencedor foi João Loureiro, com o modelo Gazela Primeiro. E até ao fim da exposição, os visitantes terão oportunidade de votar no modelo da sua preferência, fundamentalmente para se saber se há empatia com a decisão do júri.

Gazela Primeiro em grande plano
Numa terra como a nossa, retratada tão bem por D. João Evangelista, não falta gente com habilidade para construir barquinhos, que inúmeras vezes, no inverno, navegavam nas valas que pareciam autênticos rios que secavam no verão. Muitos desses construtores de barquinhos não se ficaram por aí e avançaram para trabalhos mais completos, que são obras de arte que ultrapassam o simples artesanato. E foi com dois desses artistas que tivemos o prazer de conversar. Paulo Agra e João Loureiro, 30 e 50 anos, respetivamente, dedicados ao modelismo e ambos dirigentes da TEAM. 
Paulo Agra neto de construtores navais e filho de pescador do bacalhau à linha sentiu-se inclinado desde muito cedo para a história e coisas do mar e dos barcos, distinguindo os lugres, «os mais lindos», sobretudo os da escola de Mestre Mónica. O primeiro que fez em Trabalhos Manuais, foi um moliceiro, «a olho», e depois foi progredindo e aperfeiçoando a técnica, como autodidata. 
Presentemente, faz tudo à escala, até porque a sua profissão de desenhador técnico o levou a compreender o valor do rigor. «Criei uma tabela em excel para ajudar os membros da TEAM a fazerem a conversão do real para o modelo a construir», disse.
A construção de um modelo de qualidade demora horas sem conta, mas o seu recorde está no “Maria da Glória”, três meses, um navio que foi afundado na segunda guerra mundial por um submarino alemão, deixando muitos mortos na memória do nosso povo. Foi uma encomenda do diretor do Museu de Ílhavo, com prazo estipulado, que o Paulo Agra aceitou. E sublinhou: «Só havia uma fotografia e tive de consultar registos e de ouvir várias pessoas, fazer a conversão para o tamanho desejado e conhecer a história do barco.»
O presidente da associação ainda nos referiu que as maquetas devem ter em conta uma época concreta, uma vez que os armadores fazem readaptações com alguma frequência para tornar mais funcional o trabalho a bordo.
João Loureiro foi para o estaleiro do Mestre Mónica quando saiu da escola primária. «Andei cinco anos a ajudar os carpinteiros e outros profissionais e quando completei os 20 anos a tropa destinou-me a guerra em África. Mas tinha uma possibilidade de a evitar, se embarcasse nos navios da pesca do bacalhau. Foi o que aconteceu. E ali, ao ver os homens da Afurada e outros a construir barquinhos à navalha e formão, mesmo desproporcionados, comecei a entusiasmar-me», sublinhou,
Enquanto ajudante de motorista, fez o primeiro modelo, o “Celeste Maria”, e quando nasceu o seu miúdo, aplicou-lhe uma lâmpada, transformando-o num candeeiro. «Foi um prazer enorme!», disse. «Enquanto trabalhava e com quatro filhos não tinha tempo para nada, mas prometi que, quando me reformasse, me havia de dedicar ao modelismo; e assim foi», garantiu-nos.
Trabalhou sem grande rigor e um dia foi convidado pela TEAM. Aí conheceu «o senhor Paulo» e começou a ver planos, a ouvir os conselhos e orientações dele, a seguir as regras essenciais. «Foi uma mudança radical». E o seu dia a dia é assim: «Pesco e dedico-me a outros serviços, mas antes de jantar trabalho duas horas nos modelos; depois do jantar, em vez de ir ver telenovelas, vou para a arte, trabalhando quatro ou cinco horas à noite». E acrescentou: «Neste momento tenho 15 modelos a sério e uns 40 sem ser a sério.»

Fernando Martins



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