Crises geram solidariedade

Texto publicado em 2012

A família está em mudança com a crise, 
a tecnologia, a indefinição na educação. 
Desafios e oportunidades.

Família numerosa

“Com as crises a vários níveis e nos mais diversos setores, a criança acaba por ser o elo mais fraco” na conjuntura atual, garantiu Paulo Costa, vereador da Câmara Municipal de Ílhavo (CMI) e presidente da CPCJ (Comissão de Proteção de Crianças e Jovens), no II Encontro promovido por aquela organização de âmbito concelhio, que se realizou na sexta-feira, 12 de outubro, no Centro Cultural da Gafanha da Nazaré, para debater os “Novos Desafios e Oportunidades para as Famílias em Mudança”.
Paulo Costa adiantou que foram abordados temas pertinentes sobre o “impacto dos novos modelos de família na vida da criança”. Trata-se de uma ação, esclareceu, que “nos prepara para atuarmos com mais consistência e saber nas nossas comissões”. E sublinhou: “Abordámos os novos conceitos de família, o divórcio, a emigração e imigração, tudo o que está a mexer com aquilo que é a estrutura tradicional da nossas famílias.”


O encontro destinou-se a técnicos com intervenção na área social e na comunidade em geral, tendo sido abordados assuntos tão importantes como “A nova organização familiar e suas consequências”, “Responsabilidades parentais. Parentalidade positiva e formação parental” e “Alienação parental – Utopia ou realidade?”.
Em mesa redonda, moderada pelo presidente da CPCJ de Ílhavo, Madalena Alarcão, da Universidade de Coimbra, lembrou que as crianças e jovens são muito sensíveis à coerência, enquanto referiu que “não há hoje um discurso claro sobre o que pode ou não fazer-se na educação dos filhos”, mas também afirmou “a necessidade de haver um percurso equilibrado do educador”. Ainda alertou para o facto de todos sermos sujeitos a grandes pressões nos tempos que correm.

Anabela Quintanilha, advogada e coordenadora da Alternativa Mediar, afiançou que o termo família monoparental a faz “arrepiar”, porque, no caso de divórcio, os filhos continuam a ter pai e mãe, sendo reconhecido que, “ao contrário do que muitos pensam, as crianças adaptam-se bem às regras da casa do pai e da casa da mãe, como se adaptam às regras da escola”. Contudo, frisou que “os pais podem e devem entender-se na aplicação de algumas regras”.

Lina Coelho, economista e investigadora, sublinhou, a propósito da crise económica e social que afeta o nosso país, a dificuldade que todos sentem em “passar dos patamares do bem-estar para os patamares mais baixos”, mas ainda afirmou que “as crises existem para descobrirmos novas soluções”, através da reflexão e das tensões inevitáveis, tornando-se fundamental “envolver as crianças”, porque elas “não podem ficar fechadas num limbo”. E ao abordar as consequências do desemprego, frisou que, afinal, “o emprego é estruturante da nossa identidade”.


Poucos apoios para famílias grandes


Cristina Ribau, em representação da Associação de Famílias Numerosas, disse que as famílias com vários filhos “podem dar um contributo valioso à sociedade, sobretudo na renovação das gerações”, numa época em que a natalidade desce assustadoramente, desde há 30 anos até ao presente.
Cristina Ribau denunciou a falta, em Portugal, de políticas de família, que beneficiem agregados familiares com mais filhos, através de descontos em várias vertentes (água, energia elétrica e transportes, entre outros). E sugeriu a urgência de o Estado aplicar os impostos tendo em conta o agregado familiar, garantindo que “é possível conciliar a vida profissional e familiar”.

Para o professor Filipe Tavares do Agrupamento de Escolas de Ílhavo, esta ação foi um bom contributo para a reflexão que se impõe sobre o “ser família nos dias de hoje”. Disse que não faltaram alertas dirigidos aos educadores sobre os riscos que filhos, crianças e jovens podem correr. E acrescentou: “Pretendemos um mundo melhor, com base na construção de famílias capazes; mas também verificámos que há uma grande diversidade de tipologias familiares, bem diferentes do que estávamos habituados.”
Para Filipe Tavares, alguns riscos que podem afetar as crianças e jovens encontram a “incapacidade de algumas famílias” na gestão do que é ser família nos tempos presentes, tendo adiantado que essas dificuldades estão muitas vezes ligadas à situação de crise económica, mas também à crise afetiva que tem sido perdida com a tecnologia, a qual, “em vez de nos aproximar, nos afasta”, frisou.
O professor do Agrupamento de Escolas de Ílhavo denunciou que muitos pais não conseguem responder aos desafios “do que é ser criança”. E salientou: “É importante perceber que estas crises podem levar-nos à descoberta da solidariedade, que não é apenas técnica, sociológica ou política, mas é sobretudo uma questão de humanidade.”

Fernando Martins

Nota:

1.Publicado no Correio do Vouga em 31 de outubro de 2012;
2. Mantém normal atualidade para os dias de hoje.

Comentários