domingo, 9 de março de 2014

O GIL EANES


         Na madrugada clara, soalheira e fria destas latitudes, escutou-se uma voz longínqua, distante, muito distante mesmo, que apenas se percebia, mas que para alguns raros navios de atenção à rádio, a essa hora, soou como um brado de esperança e uma alvorada de aleluia.
            Essa voz distante, confusa, falava português, chamava os lugres bacalhoeiros portugueses, designava mesmo os navios: Groenlândia, Maria Preciosa, Maria da Glória.
            Mas vinha lá tão longe ainda, essa voz!...
….
            Formularam-se hipóteses:
            − Pode ser um dos dois novos arrastões, o João Corte Real ou o Álvaro Martins Homem, que segundo as comunicações da Emissora captadas cá tão longe tinham largado para a primeira viagem, num pronúncio de bom augúrio! − comentava Manuel Viana, com João Fernandes Matias, respectivamente piloto e capitão do lugre Groenlân dia.
            − Mas a não ser um dos arrastões, sóse fosse o transporte Gil Eanes…− afirmava a poucas milhas dali o capitão Sílvio Ramalheira com o seu piloto João Nunes dos Santos do Maria da Glória. … e a hipótese era arredada, no justificado temor de mais uma desilusão −só se fosse o transporte Gil Eanes.
            Esperado ansiosamente por todos, há tantos dias, contando-se cada hora que passava como um ano, desde que essa hora se falasse do navio-hospital de tão belas tradições junto da frota… havia o medo de que desta vez ainda não fosse ele. Era sumamente doloroso somar aos outros mais este desengano!...
….
            Passaram poucas horas. A voz que suava ao longe tornou-se mais distinta, aproximou-se. Já não restavam dúvidas. O transporte aproximava-se e navegava em direcção dos lugres. Oh! Alegria imensa!...
            Era na realidade o navio-hospital Gil Eanes que se aproximava da frota bacalhoeira, naquela campanha da pesca do bacalhau de 1941, segundo os referidos excertos em itálico do livro Os Grandes Trabalhadores do Mar nas páginas 233, 234 e 235 de Jorge Simões[1].
            Na verdade, o Gil Eanes chegava para dar uma nova vida aos marinheiros abandonados à sua sorte, em latitudes tão inóspitas, onde habitavam os frios intensamente frios, os muros de nevoeiros silenciosos, misteriosos, húmidos. Estas névoas andavam frequentemente de mãos dadas com a morte, engolindo os pescadores! Violentas tempestades originavam ondas alterosas que fustigavam o convés e quase afundavam a embarcação, fazendo ranger e estremecer o seu cavername.
            O Gil Eanes era desejado, era saudado alegremente, era mesmo também tratado como se fosse um santo milagroso, que ao chegar o dia de o seu navio ser por ele visitado, diziam hoje é dia de São Gil Eanes.
             Estas manifestações de espontânea e ingénua alegria eram comuns em todas as campanhas da pesca do bacalhau nos mares da Terra Nova e Groenlândia.
            Mas nem sempre assim foi porque a assistência que o Gil Eanes prestou à frota bacalhoeira, só começou a concretizar-se, devido a um requerimento da Associação dos Oficiais da Marinha Mercante de Ílhavo, datado de 27 de Janeiro de 1922 e dirigido ao Ministro da Marinha.
            O referido documento tinha como objectivo lembrar o governante da difícil e perigosa pesca a que se expunham os bravos e heróicos marinheiros nos pesqueiros da Terra Nova e sugerir-lhe as seguintes soluções para facilitar-lhes a vida da qual talvez o próprio ministro nem fizesse ideia:

─ que naquele ano estavam a preparar-se para a pesca do bacalhau para cima de 50 barcos à vela, com uma tripulação aproximada de 3000 marinheiros que iriam contribuir positivamente para a economia do país.
─ que os referidos homens sempre procuraram e sempre obtiveram o apoio médico e espiritual do navio-hospital  francês Saint Jeanne d’Arc que todos os anos acompanhava os pescadores seus compatriotas.
─ que estava a tornar-se incómodo para os franceses o apoio que  todos os anos os nossos marinheiros recebiam do navio-hospital  gaulês, uma vez que os armadores portugueses não actualizavam monetariamente o protocolo assinado com a Société des Ouevres de Mer.
─ que havia em Portugal navios que com facilidade e pouca despesa podiam transformar-se em embarcações de apoio.
- que os marinheiros portugueses também eram bem merecedores de cuidados médicos e espirituais fornecidos pelo seu próprio país de que tanto necessitavam, perante os constantes perigos a que estavam expostos.
─ que se qualquer governo gostava de decretar medidas de carácter social para o bem estar da população, estas deveriam ser incluídas.
─ que a maioria dos sócios daquela associação marítima ilhavense ganhavam a vida na pesca do bacalhau nos bancos da Terra Nova e que veriam com todo o agrado e satisfação que aquelas medidas fossem decretadas e que muito iriam contribuir para o interesse de todos.
            Para finalizar, os oficiais repetiram a necessidade e urgência de o ministro decretar a transformação de um navio do Estado em hospital que pudesse dar apoio condigno aos marinheiros, já na próxima campanha de 1923.
            Assinaram esta petição os membros da direcção José Ançã, Calisto António Ruivo, Luís Fernandes Bagão, António Pereira Ramalheira e Francisco  Ramalheira.
            No referido ano, o governo aparelhou o cruzador Carvalho Araújo, que embora não reunisse as condições necessárias, cumpriu a sua missão junto dos marinheiros.

Cruzador Carvalho Araújo

            Comentava-se na época que o governo teria considerado esta petição como um ultimatum porque em 1917, os navios não saíram para a Terra Nova, devido a exigências que os capitães fizeram aos armadores. Temendo então nova paralisação,  preparou e enviou o Carvalho Araújo.
            Já em 1922, o médico do Saint Jeanne d’Arc referia que o recrutamento dos marinheiros portugueses seria feito sem uma prévia inspecção de saúde, uma vez que tratou e hospitalizou 13, entre os quais 5 estavam tuberculosos, tendo 1 morrido a bordo. Também viu homens que precisavam de tratamento, mas nem os próprios nem os capitães consentiram que fosse feito; os primeiros porque era preciso ganhar a vida a todo o custo e os segundos porque a sua preocupação principal era encher os porões de bacalhau.
            Na 1ª viagem do Carvalho Araújo em 1923, a prestar assistência aos  marinheiros nos Bancos da Terra Nova, tanto o capitão como o respectivo médico elaboraram os devidos relatórios; o primeiro dirigiu-o ao Ministro da Marinha e o segundo à Direcção Geral da Marinha.
            O capitão começou por escrever que não só assistiu 20 navios e deu prioridade à
ajuda aos marinheiros, mas também à necessidade de modificar o sistema de pesca, aspecto que não será abordado neste trabalho. Também reconheceu que a primeira viagem do Carvalho Araújo não foi muito eficiente, e que o cruzador não reuniu as condições necessárias para cumprir aquela difícil missão, mas, mesmo assim, dera bem para alertar as consciências.
            O oficial do navio de apoio continuou, escrevendo que …a assistência torna-se absolutamente indispensável absolutamente precisa. De longe, por mais que se idealize, por mais que se procure imaginar o que poderá ser a existência do pescador português nos bancos da Terra Nova, nas circunstâncias e condições em que, até agora, se tem encontrado, nunca será possível bem ajuizar o que esses infelizes passam e sofrem nessa vida horrorosa de todos os dias, cheia de trabalhos violentos e extenuantes e de perigos variadíssimos e quase que permanentes!
            Para bem se avaliar esse viver extraordinário e excepcional é necessário ir de perto, ver e observar directamente o que ali ocorre, e então sentir-se-á o abandono criminoso a que tem sido votado esse numeroso grupo de desgraçados que por necessidade, aventura ou inconsciência, se sujeita a trabalhar durante meses, entregues a si próprios, em uma região falha de todo o socorro.[2]
            Naquele ano de 1923, os nossos marinheiros não tiveram o apoio do Saint Jeanne d’Arc porque não lhes distribuiu a correspondência, justificando com as razões anteriormente referidas para com a Société des Oeuvres de Mer. Também a assistência médica mais simples e ligeira não foi aplicada, preferindo os franceses os casos mais graves de hospitalização para eventualmente apelar a uma futura remuneração dos serviços.
            Foi indescritível naquele ano, a alegria dos marinheiros ao verem-se apoiados pelo Carvalho Araújo. À sua passagem e de bordo dos seus dóris, saudavam-no alegremente com os suestes de oleado, batiam palmas e diziam alto frases cheias de ingenuidade, de sinceridade, mas carregadas de gratidão que só eles podiam exprimir para exteriorizar o que ia nas suas almas, habituados como estavam ao abandono, à solidão, ao sofrimento.
            O navio-hospital português transportou correspondência para 68 navios que, na sua maioria, foi entregue directamente; uma pequena parte ficou com o último lugre que o navio de apoio visitou, antes da sua viagem de regresso a Portugal.
            Depois deste muito resumido relatório do comandante do Carvalho Araújo, capitão-de-fragata Octávio Matos Moreira, impunha-se agora conhecer a opinião e trabalho do segundo tenente médico Carlos Augusto Rodrigues Borges.
             O responsável pela saúde dos marinheiros começou também por pôr em evidência a primeira vez que aqueles bravos homens tivessem sido lembrados; em segundo lugar, terem sido assistidos, amparados, acarinhados e animados. O médico viveu uma sensação de alegria e orgulho por ter socorrido simples compatriotas, a trabalharem em condições tão precárias, devido à indiferença criminosa dos que tinham o dever de protegê-los.
            Em Virgin Rochs, bancos da Terra Nova, iniciou então o Carvalho Araújo a desejada assistência aos marinheiros, observando-os e medicando-os, assim como também forneceu-lhes medicamentos.
            A maior parte das doenças que encontrou foram as de estômago, aparelho respiratório e bastantes panarícios ou unheiros, devido ao contacto com a água salgada do mar, anzóis e frio intenso. Também um lugre que não quis identificar, informou-o que tinha dois pescadores tuberculosos, mas o médico não os chegou a observar porque naquele momento, encontravam-se a pescar. Seria pois necessário fazer uma inspecção sanitária a todos os marinheiros, mas isso era impossível porque só à noite se encontravam a bordo e ocupados com a escala e salga do peixe.
            Depois de informar os seus superiores com um mapa anexo da assistência realizada, o médico lembrou-lhes ser imperioso que o Governo enviasse todos os anos um navio para apoiar os 70 barcos e os 3000 homens como naquela campanha de 1923. Continuou a informar no seu relatório que durante dois meses nem mesmo o Saint Jeanne d’Arc  aparecera por aquelas paragens; 2 dias antes  da sua chegada aos bancos, tinha morrido um pescador com sífilis, e que um outro teria tido a mesma sorte, se o navio-hospital não se encontrasse por perto.
            O médico enumerou outras fortes razões para a continuidade daquele apoio, reforçando a ideia de que o país tinha a trabalhar muito longe e durante 6 meses os marinheiros que bastante contribuíam para enriquecê-lo. Assim, eles mereciam ser ajudados e não abandonados à sua sorte.
             O clínico continuou o relatório, referindo agora o que pensava da maneira como eram recrutados os marinheiros, sem uma prévia e rigorosa inspecção médica. Examinou um caso de úlcera de estômago que obrigou o respectivo doente a não mais trabalhar passados dois dias de sair de Lisboa. Informaram-no de pescadores tuberculosos, cuja simples presença dentro de um navio poderia infectar toda a tripulação.
            Também a pouca higiene a bordo, a baixa temperatura daquelas latitudes, a alimentação deficiente e mal organizada eram propícias ao aumento de doenças, para quem já tinha embarcado com alguns problemas de saúde. Lembrou a necessidade de haver uma inspecção antes do embarque para evitar de os marinheiros terem o mar como sepultura embora compreendesse a inconsciência destes porque tinham de ganhar a vida.
             O médico classificou a farmácia de bordo como defeituosa, mal organizada e mal fornecida. Terminou, referindo que os navios deveriam ter livros sobre enfermagem destinados ao capitão ou ao piloto para poderem prestar os primeiros socorros antes da chegada do navio hospital.
            Estas foram as impressões do capitão e do médico do cruzador Carvalho Araújo, o primeiro navio a apoiar os portugueses, naquela vida tão perigosa, tão trabalhosa em 1923.
            Mas estes homens iriam ficar uma vez mais abandonados e esquecidos, durante  4 anos.
            Quando começou a 1ª Guerra Mundial, vários navios alemães foram apresados no porto de Lisboa, entre os quais o Lahneck que foi o escolhido em 1926 para apoiar a frota bacalhoeira e substituir o Carvalho Araújo. Partiu para a Holanda, com o fim de melhor adaptar-se, não só à assistência hospitalar, mas também ao embarque dos mantimentos habituais de todo o género.


O Lahnech/Gil Eanes

            Foi o Lahnech baptizado com o nome do navegador algarvio Gil Eanes que largou do Tejo em 1927 para a sua humana e esperada missão de apoio aos marinheiros.
            Quando o Governo decidiu transformar o Lahnech em barco de apoio, poder-se-ia logicamente pensar que o seu trabalho, a partir daquela data, seria para continuar; assim não aconteceu porque, no ano seguinte, o Lahneck / Gil Eanes partiu para a Guiné e Angola, transportando presos políticos.
            Em 1929 e 1930, o navio de apoio fez respectivamente a 2º e 3ª viagens à Terra Nova. A partir deste último ano, transportou guarnições para Macau, presos políticos para Timor e fez viagens para a Inglaterra até 1936. Só no ano seguinte, recomeçou mais regularmente a cumprir a actividade para a qual fora preparado; conclui-se que no espaço de 10 anos, ou seja de 1927 a 1937, apoiou os marinheiros somente em 3 campanhas da pesca do bacalhau.
            Difícil é pois saber se a verdadeira razão da existência do Gil Eanes era de ordem comercial ou de assistência aos pescadores.[3]
            A partir de 1937, a missão do Lahneck/ Gil Eanes começou então a ser mais frequente, tornando-se ainda mais forte o elo de ligação entre os marinheiros e as famílias em Portugal; levava-lhes as cartas e lembranças que mitigavam as saudades, distribuídas no final da escala e salga e todos os mantimentos que eram necessários à campanha.      
            Entretanto a partir de Setembro de 1939, a Europa e o mundo foram assolados pela 2ª Guerra Mundial com os veleiros a pescar nos Grandes Bancos da Terra Nova e agora também na Groenlândia. Estes pesqueiros situavam-se nas rotas de navegação entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos tão apetecíveis para os nazis com os seus submarinos escondidos no seio daquelas frias e perigosas águas.
            Em Fevereiro de 1942, o Lahneck / Gil Eanes deixou de pertencer à Marinha de Guerra e passou para as mãos da Sociedade Nacional dos Armadores de Bacalhau.
             Em Novembro do referido ano, os aliados preparavam-se para invadir o norte de África numa operação com o nome de código Torche.
            Os serviços secretos do Reino Unido começaram então a verificar procedimentos fora do normal de navios portugueses a pescar no Atlântico Norte equipados com aparelhos de transmissão de rádio. Aqueles serviços desconfiaram especialmente do arrastão Álvaro Martins Homem que tinha como radiotelegrafista Carlos Maria Tomás Teixeira e do navio-hospital  que nos dias 4 e 5 de Agosto do referido ano, teria comunicado aos alemães alguns movimentos de navios aliados naquelas paragens. Estas transmissões foram recebidas por uma estação clandestina alemã na Linha do Estoril, mais propriamente em Cascais.
            Numa estadia do Lahneck/ Gil Eanes em St. John´s, os ingleses fizeram-lhe uma busca, decidindo que o seu operador de rádio Gastão Crawford de Freitas Ferraz fosse detido. Porém, alguns erros de estratégia impediram que a sua prisão se realizasse de imediato, e o navio iniciou a viagem de regresso a Portugal.
             Os ingleses resolveram pôr a embarcação portuguesa ao fundo sem deixar quaisquer vestígios, incluindo de sobreviventes porque era preferível que morressem algumas dezenas de pessoas, facto que seria um mal menor, comparado com milhares de vítimas na operação Torche.
             Os aliados escolheram aquela última decisão devido à proporcionalidade da ameaça, ou seja, de o operador do navio-hospital conseguir informar os nazis do itinerário dos barcos aliados para a referida operação no norte de África.
            Posteriormente, os serviços secretos ingleses mudaram de ideias, pensando que não seria desejável atacar os portugueses porque forneciam combustível nos Açores e Cabo Verde à Royal Navy. Decidiram então interceptar o barco já a caminho de Portugal; prenderam o espião Gastão Ferraz, evitando que este informasse atempadamente os alemães dos planos de invasão dos Aliados na operação Torche, caso os conhecesse.   A prisão em alto mar deu-se no dia 3 de Novembro de 1942, tendo sido escolhido para esta missão o destroyer  HMS Oribi (G66) que acompanhava o comboio de navios W24.
            Os agentes secretos que detiveram o espião português permaneceram a bordo do Lahneck/ Gil Eanes até chegarem a águas portuguesas, aonde o radiotelegrafista foi transferido para uma fragata da Royal Navy que o conduziu para Gibraltar. 
             A detenção do operador de rádio apanhou de surpresa as tropas alemãs e francesas do governo pró-nazi de Vichy que estavam no norte de África porque acreditavam que os aliados iriam desembarcar em França ou Noruega e não em Marrocos e na Argélia como veio a acontecer.
            O eventual relatório redigido pelo capitão-de-fragata António José Martins, delegado do governo junto do Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau,  na referida viagem a bordo do navio- hospital desapareceu dos arquivos da Marinha.[4]


Gil Eanes


            O velho navio apresado aos alemães foi substituído por um novo Gil Eanes em 1955 quando foi lançado à água em Viana do Castelo. Continuou no referido ano a sua humanitária missão com o apoio das campanhas bacalhoeiras até 1973, alternando com viagens de comércio e passageiros. A partir desta data, fez navegações de carácter diverso, até ser vendido para ser desmantelado em 1997.
            Depois de várias iniciativas para recuperar a embarcação, salvando-a da sucata, a Câmara Municipal daquela cidade, conseguiu constituir a Fundação Gil Eanes no ano seguinte, ou seja 1998.
             O navio-hospital encontra-se ancorado no seu porto de origem, onde além de funcionar como Pousada da Juventude recebe visitas à ponte de comando, padaria, casa das máquinas e todos os compartimentos relacionados com os tratamentos sanitários.
            Como nota final, Mário Moutinho escreve na obra citada, na página 146;
             Um outro tipo de assistência prestada pelo Gil Eanes e que os pescadores nunca esqueceram de nos referir diz respeito ao controle policial que sobre eles era feito a partir do navio de apoio. Pairava sempre sobre eles a certeza de serem entregues ao Gil Eanes e aí aprisionados sempre que algum problema laboral (ou político?) ou qualquer outro conflito surgisse e para o qual os capitães não encontrassem solução imediata.

                                                        

                                                                                       Dezembro de 2013

                                                                                  Licínio Ferreira Amador






[1] Jornalista do Diário da Manhã escolhido por Henrique Tenreiro para fazer uma reportagem sobre a pesca do bacalhau  a bordo do lugre Groenlândia em 1941.
[2]Pata, Manuel Luís, A Figueira da Foz e a Pesca do Bacalhau, Achegas para a sua História, volume 1 página 220, fonte de Moutinho Mário, História da Pesca do Bacalhau por uma antropologia do fiel amigo, Lisboa Editorial Estampa 1985, página 62.
[3] in Moutinho Mário, História da Pesca do Bascalhau por uma antropologia do fiel amigo, páginas 144 e 145,  Editorial Estampa, 1985, Lisboa.
[4] As informações sobre a espionagem detectada em barcos de pesca do bacalhau no Atlântico Norte, durante a 2ª Guerra Mundial tiveram como bibliografia a obra de Rui Araújo, O Diário Secreto que Salazar não leu, Oficina do Livro, 2008, especialmente  da página 86 a 138, inclusivé.

sábado, 1 de março de 2014

Foi à sombra da Igreja que surgiram as principais instituições da Gafanha da Nazaré


A Gafanha da Nazaré, paróquia e freguesia, tem vindo a celebrar os 100 anos de existência. D. Manuel II assinou o decreto no dia 23 de Junho de 1910 (provavelmente, o último de criação de uma freguesia na monarquia), enquanto o Bispo de Coimbra criou canonicamente a paróquia no dia 31 de Agosto de 1910. Para assinalar o centenário, entre outras iniciativas, publicou-se o livro “Gafanha da Nazaré, 100 anos de vida”, da autoria de Fernando Martins, antigo professor do ensino básico, diácono, director do “Correio do Vouga” entre 1992 e 2004, profundo conhecedor da terra que o viu nascer. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
CORREIO DO VOUGA – Escreveu este livro (apresentado publicamente no Centro Cultural da Gafanha da Nazaré, no dia 7 de Agosto) num tempo recorde. Tal deve-se, também, ao facto de há muito investigar e escrever sobre a Gafanha da Nazaré…
FERNANDO MARTINS – A paróquia fez-me o desafio no final de 2009: um livro para celebrar o centenário. Aceitei a missão, embora pensasse que não seria tarefa para uma pessoa só. Fiquei encarregado de arranjar uma equipa, mas depois resolvi assumir integralmente a tarefa da escrita. Na minha óptica, teria menos trabalho, evitando reuniões e revisões do trabalho de outros, até porque, de facto já tinha alguma coisa escrita e tenho as minhas próprias ideias. A verdade é esta: a paróquia tem 100 anos e eu vivi quase três quartos desse período. Março, Abril e Maio foram os meses mais intensos de investigação e escrita.
O livro não é uma autobiografia, mas alimenta-se certamente das suas vivências…
Eu estive sempre, desde menino, integrado na paróquia, desde a pré-JOC (Juventude Operária Católica – de que seria dirigente diocesano). Na freguesia, a mesma coisa. Sempre lutei, desde jovem, em defesa da Gafanha, quer integrando os seus organismos e associações, quer escrevendo nos jornais da JOC, no “Timoneiro” [mensário da paróquia], como correspondente do Comércio do Porto…
Hoje prossegue essa defesa na rádio e na imprensa regional e nos seus blogues Pela Positiva e Galafanha. Mas o uso mais eficaz da comunicação social talvez tenha sido a quando da elevação a vila…
Sim, antes da Gafanha ser elevada a vila (1969), dinamizei a campanha pela comunicação social, que na altura eram os jornais. Trouxe cá, com a colaboração do Daniel Rodrigues, um jornalista do “Diário Popular”, o Ângelo Granja, que fez a reportagem: “Do deserto nasceu uma vila” (21-12-1966). O processo de recolha de elementos para o processo de elevação foi elaborado pelo P.e Domingos Rebelo e por mim. Fui próximo dele e também de outros párocos.
O Daniel fez várias reportagens no “Comércio de Porto”, um jornal que na altura não era lido aqui. Tinha apenas um leitor. Fez-se então uma campanha de porta a porta, com ardinas a apregoar o jornal que trazia a reportagem do pedido de vila. Na minha sala foi dado um lanche aos jornalistas convidados para visitar a Gafanha da Nazaré…
Apesar de há muito escrever sobre a Gafanha, encontrou aspectos novos na investigação para este livro?
Destaco uns artigos que saíram no “Diário de Lisboa”, em 1947. Alguém alertou o jornal para o descontentamento que havia na Gafanha da Nazaré. Nas reuniões da Câmara só se falava da Ílhavo e da Costa Nova. Um enviado especial não identificado fez quatro reportagens. Penso que terá sido Carolina Homem Cristo, directora da revista “Eva”, a alertar o jornalista para o descontentamento. “Mão fina de mulher trouxe à nossa redacção…”, diz o jornal. Falava-se então da pretensão da Gafanha se desligar de Ílhavo e integrar Aveiro. Tínhamos na altura cinco mil habitantes. O mestre Mónica dinamizou uma petição que apresentou ao governador civil. Toda a gente assinou. A petição não seguiu para Lisboa porque o governador achava que era gente de mais. Procurei esse documento no Governo Civil, mas não o encontrei. Pode ter sido levado pelo fogo que entretanto atingiu o edifício. Houve uma manifestação em Aveiro com grande participação popular, mas o governador não apareceu. “Levei lá a gafanhotada toda”, dizia o mestre Manuel Maria Bolais Mónica [construtor naval].
As reivindicações contra Ílhavo são uma constante da história da Gafanha da Nazaré?
Ainda em relação a este episódio, deixe-me dizer-lhe que depois foram entrevistar João Senos, presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, que disse: “Acredito que daqui a uns tempos a Gafanha da Nazaré não pertencerá a Aveiro nem a Ílhavo, porque será um concelho”. Disse aquilo para amaciar o pessoal. Mais tarde, um vereador escreveu para o jornal a protestar que o presidente não queria dizer isso. O jornalista respondeu que “podia não ter querido dizer isso, mas foi o que disse”.
Havia de facto mal estar entre a Gafanha e Ílhavo. O presidente da Câmara era sempre um ilhavense. Isso só foi atenuado quando foi para a presidente Humberto Rocha (da Gafanha da Nazaré), seguido de Ribau Esteves (da Gafanha da Encarnação), que apagou todas essas fogueiras. Ribau Esteves teve a preocupação de alterar a situação, cumprindo a lei de distribuição de verbas proporcional ao número de pessoas e ao território.
O abandono da Gafanha da Nazaré estava especialmente patente na questão eléctrica…
Quando nos finais da década de 1940 a energia eléctrica passou para a Costa Nova, com a intenção de chegar ao Farol da Barra, a Gafanha continuava sem nenhuma espécie de energia. Foi aí que o povo se reuniu, de certa forma revoltado, e fez a Cooperativa Eléctrica, que foi a maior acção da unidade de um povo que apostava em si próprio. Era uma das maiores cooperativas de Portugal, porque todos os habitantes faziam parte dela. Para terem energia eléctrica tinham de ser sócios. Durou até depois do 25 de Abril. A cooperativa só foi dissolvida com a nacionalização da distribuição da energia e a criação da EDP. Era eu o presidente da assembleia-geral da cooperativa.
Que importância teve a paróquia nesta comunidade relativamente jovem?
Há quem me diga que o livro fala muito da paróquia. Mas foi sem dúvida nenhuma à sombra igreja que surgiram as principais instituições. Restaurou-se, por exemplo, o Grupo Desportivo da Gafanha, tendo eu empurrado para presidente da assembleia-geral o P.e Domingos Rebelo, na década de 50 do século passado. Outro exemplo: o Grupo Etnográfico nasceu a partir do desafio do P.e Miguel Lencastre. A catequese fazia sempre uma festa no final do ano com peças de base bíblica e cantorias, às vezes sem nexo. O P.e Miguel laçou o desafiou: por que é que vocês não fazem umas danças como as dos vossos avós? O Alfredo Ferreira da Silva era na altura o presidente da catequese e é hoje o presidente do Etnográfico. As reuniões destes grupos e da cooperativa eram nas salas da igreja. Até a primeira Junta de Freguesia, segundo a acta, “reuniu-se na sacristia do lado sul da igreja paroquial”.
Os padres foram pessoas determinantes no destino da Gafanha?
Sim, conforme a época. Não tinham rasgos, como hoje se vê, em termos pastorais. A pastoral era de manutenção, tradicionalista, como noutros lugares. Só não conheci o Prior Sardo, que morreu 1925. Eu nasci em 1938. Do segundo prior, P.e Guerra, nunca me lembro de ter feito uma homilia. A missa era em latim, as mulheres estavam sentadas no chão, os homens à volta, de pé. Alguns, mais ricos, tinham cadeiras. O Sr. João Catraio, de que falo no meu livro, tinha uma com genuflectório.
Mas o primeiro, o Prior Sardo (1873- 1925), foi fundamental para a criação da freguesia.
O P.e João Ferreira Sardo foi um grande político. O P.e João Vieira Resende escreveu no jornal “O Ilhavense”, em 1958, que era importante ele meter-se na política para chegar aos seus fins, criar a paróquia e a freguesia: O P.e Sardo “dava ordens e directrizes em que era obedecido sem restrições ou quaisquer objecções, criando por esta forma ambiente favorável à criação da freguesia, que ele desde há muito tempo trazia em mente”. Era o “rei daquelas terras”. O Prior Sardo tornou-se vereador e foi vice-presidente da Câmara de Ílhavo. Aproveitando uma saída temporária do presidente, ordenou o pagamento da rua da Gafanha de Aquém até à Gafanha da Nazaré. E liderou, na realidade, o processo de criação da paróquia e freguesia.
Entre os fundadores da freguesia e paróquia, além do povo, D. Manuel II, D. Manuel de Bastos Pina (Bispo de Coimbra) e o Prior Sardo, colocou no seu livro Nossa Senhora da Nazaré. Porquê?
Porque andava tudo à volta do seu culto. Ninguém sabe como surgiu aqui o seu culto, que será anterior à constituição da paróquia. Quando o Bispo de Coimbra mandou os examinadores para confirmarem se havia condições, o povo disse que queria que a padroeira fosse Nossa Senhora da Nazaré. Assim ficou.
Hoje a Gafanha está muito ligada ao mar, principalmente às actividades portuárias. No início também foi assim?
Ao contrário do que muita gente pensa, não foi assim. Colhi esse testemunho dos mais velhos. Eram principalmente agricultores, embora hoje haja pouca agricultura. Tinham a ria ao pé, mas não pescavam, nem apanhavam o moliço. Os moliceiros vinham da Murtosa e de Estarreja.
Mas a formação geológica da Gafanha – ou mesmo das Gafanhas – está muito dependente da regularização da Barra…
Sim, mas quando abriram a Barra, em Abril de 1808, durante as Guerras Peninsulares [os barcos para a manutenção do exército luso-inglês já passaram pela Barra), o crescimento não foi de rompante. Mas hoje podemos dizer que a Gafanha é filha do porto, sem dúvida nenhuma. O primeiro estaleiro veio para aqui em 1889.
Velha história é a da origem etimológica do nome “Gafanha”. Há hoje alguma teoria que seja mais consensual?
Brinco com isso no livro. Uma teoria que diz que provém de “gadanha”, alfaia de cortar o junto e o recebolo. Como o gafanhão era muito iletrado e deturpava muito as palavras, gadanha teria dado origem a Gafanha. Outra teoria diz que provém de “pagar o gafar”, um imposto para atravessar a ria. Outra, ainda, diz que era uma “terra gafada”, cheira de gretas da lama e do sol, como a pele dos leprosos… Ou que provém de “gafo”, leproso. Mas não consta que os leprosos viessem para aqui, embora os houvesse em Vagos e Mira.
A minha ideia é que “Gafanha” provenha de “Galafanha”, “Gala + Fânia”, que é também a opinião do Monsenhor João Gaspar, que muito preso. “Gala” quer dizer “terra alagada” (há uma Gala na Figueira da Foz); “fânia” é junco, que existe em abundância nas margens da ria.
Para terminar, o que destaca como motivo para visitar a Gafanha da Nazaré?
Tenho andado um bocado obcecado com a paisagem da ria. O desenvolvimento é muito bonito, mas tiraram a ria à Gafanha da Nazaré. A ria desaparece dos nossos olhares em toda a faixa até à Barra. Os portos industrial, comercial, de pesca longínqua e costeira ocuparam toda a faixa da ria. Só temos acesso à ria, muito apertado, na Associação Náutica e Recreativa da Gafanha da Nazaré. Julgo que a Câmara está interessada em desenvolver nova ligação.
A nossa sala de visitas é o Jardim Oudinot, com o navio-museu Santo André. Não temos grandes monumentos. Há algumas estátuas e uma âncora que evoca os homens da nossa terra que andaram e andam no mar, mas somos uma terra pobre em história. Por sermos pobres temos de dar mais valor às nossas coisas.

A BARCA DA PONTE DA CAMBEIA VAI FICAR NO CAIS

Os que mais amo na vida: Lita, João, Aida, Fernando e Pedro  A Barca da Ponte da Cambeia vai ficar no cais. O homem do leme, que eu fu...